Quem toca na igreja percebe cedo que muitas músicas parecem usar sempre os mesmos acordes. Isso não é coincidência nem falta de criatividade: a grande maioria dos louvores é construída dentro do campo harmônico maior, um conjunto de sete acordes que "combinam" entre si porque saem da mesma escala. Quando você entende esse conjunto, passa a prever o próximo acorde, tirar músicas de ouvido mais rápido, transpor com segurança e conversar com a banda usando graus em vez de nomes de acordes.

De onde vêm os sete acordes

Tudo começa na escala maior. A escala de C maior tem as notas C, D, E, F, G, A, B. A distância entre elas segue sempre o mesmo padrão de tons (T) e semitons (S):

T – T – S – T – T – T – S

Em C: C →(T) D →(T) E →(S) F →(T) G →(T) A →(T) B →(S) C.

Para formar um acorde sobre cada nota, empilhamos notas "pulando uma" dentro da própria escala: 1ª, 3ª e 5ª. Sobre C: C–E–G (C maior). Sobre D: D–F–A (Dm). Sobre E: E–G–B (Em). Sobre F: F–A–C (F). Sobre G: G–B–D (G). Sobre A: A–C–E (Am). Sobre B: B–D–F (Bdim, ou B°).

O resultado é um padrão que se repete em qualquer tom maior:

Grau I ii iii IV V vi vii°
Tipo maior menor menor maior maior menor diminuto

Os algarismos romanos maiúsculos indicam acordes maiores; os minúsculos, menores. Essa notação é útil porque não depende do tom: "I–V–vi–IV" é a mesma progressão em C, em G ou em Bb.

Tabela do campo harmônico maior

Tom I ii iii IV V vi vii°
C C Dm Em F G Am B°
D D Em F#m G A Bm C#°
E E F#m G#m A B C#m D#°
F F Gm Am Bb C Dm E°
G G Am Bm C D Em F#°
A A Bm C#m D E F#m G#°
Bb Bb Cm Dm Eb F Gm A°

Algumas observações práticas:

  • O vii° aparece pouco no louvor. Na prática, é bem mais comum ver no lugar dele o V com baixo na terça (em C, G/B) fazendo papel de passagem.
  • Os tons de F e Bb usam bemóis (Bb, Eb); os tons de D, E, G e A usam sustenidos (F#, C#, G#, D#). Escrever A# no tom de F é tecnicamente o mesmo som, mas dificulta a leitura.
  • Se você acrescenta a sétima de cada acorde, ganha as tétrades: I7M, ii7 (m7), iii7 (m7), IV7M, V7, vi7 (m7) e vii m7(b5). Em C: C7M, Dm7, Em7, F7M, G7, Am7, Bm7(b5). Para entender esses números, veja o que significam 7, 7M, 9 e 4 nos acordes.

Para que cada grau serve

Pense nos graus como funções na história que a música conta:

  • I (tônica): repouso, "casa". Músicas costumam começar e terminar nele.
  • IV (subdominante): afasta-se da casa sem tensão forte. Soa aberto, muito usado em refrões.
  • V (dominante): tensão que pede para voltar ao I. Com sétima (V7) a tensão aumenta.
  • vi (relativo menor): compartilha duas notas com o I, por isso pode substituí-lo e dar um tom mais introspectivo.
  • ii e iii: acordes de ligação. O ii prepara o V; o iii conecta o I ao IV ou ao vi.

Progressões mais comuns em louvor

I – V – vi – IV

É a progressão mais presente no repertório contemporâneo. Em G: G – D – Em – C. Em D: D – A – Bm – G. Em E: E – B – C#m – A.

Apenas Uma Canção De Amor, no catálogo em G, usa exatamente esses quatro acordes (G, D, Em e C9 — o C9 é o IV com nona acrescentada). Sing (Your Love), em A, tem como base A, E, Bm e D (I, V, ii e IV), com alguns acordes de fora do campo como G e Dm.

Uma variação muito comum troca a ordem: I – vi – IV – V. Em D: D – Bm – G – A. Repare que os quatro graus são os mesmos; só a ordem muda. Músicas como Enche-me (D, Bm, G, A) e Nothing But The Blood (E, C#m, A, B) são construídas apenas com I, V, vi e IV, em alguma dessas ordens.

vi – IV – I – V

Os mesmos quatro acordes, começando pelo vi. O resultado tem um clima mais contemplativo. Em G: Em – C – G – D. Em C: Am – F – C – G.

Músicas que estão escritas "em tom menor" muitas vezes são exatamente isso. Porque Dele por Ele aparece no catálogo em Em, com Em, C, D e G — que são o vi, IV, V e I de G maior. O mesmo conjunto aparece em Único (Em, G, C, D, Am).

ii – V – I

A cadência clássica de resolução. Em C: Dm – G – C. Em D: Em – A – D. Em F: Gm – C – F. Ela aparece muito em finais de estrofe e em hinos. Com tétrades fica ainda mais clara: Dm7 – G7 – C7M.

Outras que vale reconhecer

  • I – IV – V – I (C – F – G – C): base dos hinos tradicionais e de muitos corinhos. Consagrado Ao Senhor usa só D, G e A — I, IV e V de D.
  • IV – I – V – vi (em G: C – G – D – Em): comum em pontes e refrões que "sobem".
  • I – iii – IV (em C: C – Em – F): passagem suave que usa o iii como ponte. Para treinar o campo de C inteiro, Não Há Deus Maior é um bom exemplo: seus acordes C, F, G, Am e Em pertencem todos a ele.

Como reconhecer o tom de uma cifra

Nem toda cifra informa o tom corretamente, e saber identificar evita surpresas no ensaio. Siga esta ordem:

  1. Liste todos os acordes "sem enfeite". Ignore números e baixos: C9 conta como C, D/F# conta como D, Am7 conta como Am.
  2. Procure o campo harmônico que contém todos (ou quase todos). Exemplo: G, D, Em, C e Am cabem inteiros no campo de G. Já o campo de C não serve, porque não tem o acorde D maior.
  3. Veja o primeiro e, principalmente, o último acorde. A música costuma terminar na tônica.
  4. Procure o V7. Um D7 resolvendo em G é forte indício de que G é a tônica.
  5. Decida entre maior e relativo menor. Se os acordes cabem em G mas a música começa, repousa e termina em Em, diga que está em Em (relativo menor de G). Os acordes disponíveis são os mesmos.

Acordes fora do campo existem e não invalidam a análise. Em Ressuscita-me, em C, aparecem Bb e D, que não pertencem ao campo de C: são acordes emprestados ou de passagem que dão cor. Quando você vê um ou dois acordes "estranhos" e todo o resto cabe num campo, o tom é esse campo.

Aplicando no ensaio

O maior ganho prático é falar em graus. Em vez de "toca Bm, depois G, depois D, depois A", o líder diz "vi – IV – I – V". Se o tom mudar para E na última hora, ninguém precisa reescrever nada: vi – IV – I – V em E é C#m – A – E – B. Isso também facilita muito a transposição de tom.

Plano de estudo de 7 dias

Dia 1: escreva a fórmula T–T–S–T–T–T–S e monte a escala de C, G e D. Confira que G tem F# e D tem F# e C#.

Dia 2: monte o campo harmônico de C e G sem olhar a tabela. Toque os sete acordes em sequência no violão ou teclado (o B° e o F#° podem ser tocados como Bm7(b5) e F#m7(b5) se for mais fácil).

Dia 3: toque I – V – vi – IV em C, G, D e A, quatro tempos por acorde, a 70 BPM no metrônomo.

Dia 4: toque vi – IV – I – V nos mesmos tons e compare o clima com a progressão anterior.

Dia 5: pratique ii – V – I em C, D, F e G, primeiro com tríades, depois com tétrades (Dm7 – G7 – C7M).

Dia 6: escolha três músicas do catálogo citadas acima e escreva a progressão de cada uma em graus.

Dia 7: peça para alguém tocar uma música que você não conhece e tente descobrir o tom pelos passos da seção anterior. Anote o I, o IV, o V e o vi antes da próxima reunião da banda.