Você abre a cifra e encontra C9, Em7(11), G4, F#m7(b5), Bb7M. Bate a dúvida: preciso tocar exatamente isso? Posso fazer só o acorde "normal"? Esses números não são enfeite aleatório. Cada um indica uma nota acrescentada ou trocada no acorde básico, e entender o que ela faz permite duas coisas: tocar com o som que o arranjo pede e saber quando simplificar sem estragar a música.
O ponto de partida: a tríade
Todo acorde básico tem três notas: fundamental (1), terça (3) e quinta (5).
- C maior: C – E – G
- G maior: G – B – D
- Cm (menor): C – Eb – G (a terça desce um semitom)
- Gm: G – Bb – D
Os números das cifras contam a distância a partir da fundamental, seguindo a escala maior daquela nota. Na escala de C (C D E F G A B), a 2ª nota é D, a 4ª é F, a 6ª é A, a 7ª é B e a 9ª é D de novo, uma oitava acima. Na escala de G (G A B C D E F#), a 2ª é A, a 4ª é C, a 6ª é E, a 7ª é F# e a 9ª é A.
Tabela geral
| Cifra | Nome | Fórmula | Em C | Em G |
|---|---|---|---|---|
| 7 | sétima (menor) | 1 3 5 b7 | C E G Bb | G B D F |
| 7M ou maj7 | sétima maior | 1 3 5 7 | C E G B | G B D F# |
| 9 ou add9 | nona acrescentada | 1 3 5 9 | C E G D | G B D A |
| 4 ou sus4 | quarta suspensa | 1 4 5 | C F G | G C D |
| 2 ou sus2 | segunda suspensa | 1 2 5 | C D G | G A D |
| 6 | sexta | 1 3 5 6 | C E G A | G B D E |
| dim ou ° | diminuto | 1 b3 b5 (bb7) | C Eb Gb (A) | G Bb Db (E) |
| m7(b5) | meio-diminuto | 1 b3 b5 b7 | C Eb Gb Bb | G Bb Db F |
| aug ou + | aumentado | 1 3 #5 | C E G# | G B D# |
| 5 | power chord | 1 5 | C G | G D |
As notas em negrito são as que diferenciam o acorde da tríade.
Cada símbolo em detalhe
7 — sétima menor
C7 tem Bb; G7 tem F. É a sétima "natural" do acorde dominante (V7) e cria tensão que pede resolução: G7 resolve em C, E7 resolve em Am. Em Ao Único aparecem E7 e Am7: o E7 é o acorde dominante do Am. No violão: G7 = 3-2-0-0-0-1 (da 6ª para a 1ª corda); C7 = x-3-2-3-1-0.
Simplificar? Dá, tocando G no lugar de G7, mas a resolução fica mais fraca. Num V7 que resolve, vale manter.
7M — sétima maior
C7M tem B; G7M tem F#. Soa suave, "aberto", muito usado em ministrações. Atenção: 7 e 7M são acordes diferentes; trocar um pelo outro gera choque. C7M no violão: x-3-2-0-0-0. Toda Terra (ao Vivo) usa E7M e A7M; Quão Grande És Tu traz Bb7M.
Simplificar? Sim, com segurança: C7M vira C. Perde a cor, mas não fica errado.
9 — nona
Nas cifras brasileiras de louvor, C9 quase sempre significa C com a nona acrescentada (C E G D), sem sétima — o que em inglês se escreve Cadd9. Quando a sétima também deve soar, a cifra costuma vir como C7(9) ou C7M(9). C9 no violão: x-3-2-0-3-0. G9 (G B D A): 3-x-0-2-0-3, com o A na 3ª corda, 2ª casa.
Simplificar? Sim: C9 vira C. É o caso mais tranquilo de todos.
4 (sus4) — quarta suspensa
O 4 substitui a terça pela quarta: C4 = C F G; G4 = G C D. Sem terça, o acorde fica "suspenso" e normalmente resolve no acorde normal logo em seguida (D4 → D, A4 → A). Bondade De Deus usa D4, e Rendido Estou na versão de Isaias Saad usa Asus4 e Dsus4. No violão: D4 = x-x-0-2-3-3; A4 = x-0-2-2-3-0.
Simplificar? Pode tocar só a tríade, mas o movimento 4 → 3 costuma ser parte da melodia do arranjo. No D, é fácil: basta levantar ou colocar um dedo.
2 (sus2) — segunda suspensa
Em rigor, o 2 também substitui a terça: C2 = C D G; G2 = G A D. É primo do 9: a diferença é que o 9 mantém a terça. Na prática, muitas cifras de louvor usam 2 e 9 de forma parecida, então o ouvido e a gravação decidem. D2 no violão: x-x-0-2-3-0. Quem é Deus como o nosso Deus é escrita com G2, F2/A e C2.
Simplificar? Sim, pela tríade.
6 — sexta
C6 = C E G A; G6 = G B D E. Soa doce, um pouco "antigo", comum em hinos. Te Agradeço traz Ab6, e Quão Grande És Tu (Diante do Trono) traz Bb6. Curiosidade útil: C6 tem as mesmas notas de Am7 (A C E G); o que muda é o baixo.
Simplificar? Sim, pela tríade.
dim ou ° — diminuto
A tríade diminuta tem terça menor e quinta diminuta: C° = C Eb Gb; G° = G Bb Db. Nas cifras populares, porém, o ° quase sempre é tocado como diminuto com sétima, acrescentando a sétima diminuta: em C, a nota A (escrita Bbb); em G, a nota E (escrita Fb). Seu uso mais comum no louvor é de passagem cromática: C – C#° – Dm, ou Bb – B° – C, como em Quão Grande És Tu (Diante do Trono), que tem Bdim entre Bb e C. Power Of Your Love usa D°.
Simplificar? Não omita sem pensar, porque o baixo cromático é o ponto da passagem. Uma substituição que funciona: C#° (C# E G Bb) pode virar A7/C# (C# E G A), que tem o mesmo baixo e três notas em comum.
m7(b5) — meio-diminuto
Cm7(b5) = C Eb Gb Bb; Gm7(b5) = G Bb Db F. É o acorde do vii grau na escala maior (Bm7(b5) em C) e do ii grau em tom menor. No violão, Bm7(b5) = x-2-3-2-3-x.
Simplificar? Bm7(b5) (B D F A) tem exatamente as mesmas notas de Dm6 (D F A B). Por isso, no aperto, tocar Dm com baixo em B, ou simplesmente Dm, mantém boa parte do som.
aug ou + — aumentado
C+ = C E G#; G+ = G B D#. Tem som de expectativa e quase sempre aparece de passagem: C – C+ – F, ou C – C+ – Am. Algumas cifras escrevem C5+ ou C(#5).
Simplificar? Pode tocar a tríade maior, mas perde-se a linha que sobe.
5 — power chord
C5 = C G; G5 = G D. Não tem terça, então não é maior nem menor. Típico de guitarra com distorção. A Alegria Do Senhor usa C5, Bb5 e G5. No violão: G5 = 3-5-5-x-x-x; C5 = x-3-5-5-x-x.
Simplificar? No violão acústico, tocar a tríade inteira costuma funcionar, desde que você saiba se o trecho é maior ou menor pelo contexto.
Combinações e parênteses
Os parênteses indicam notas extras empilhadas: C7(9) = C E G Bb D; Em7(11) = E G B D + A. Já o 5- ou (b5) indica quinta diminuta, e o 9- ou (b9), nona menor. Lendo da esquerda para a direita, você monta o acorde: primeiro o tipo (m ou maior), depois a sétima, depois as extensões. Para os demais símbolos da cifra (barras, repetições, intro), veja como ler uma cifra.
Regra prática para simplificar
- Sempre pode simplificar: 9, 2, 6 e 7M → tríade.
- Simplifique com cuidado: 7 (perde a resolução), 4 (perde o movimento).
- Evite simplificar: dim e aug de passagem, e acordes cujo baixo faz uma linha (barra ou cromatismo).
- Nunca troque: menor por maior, 7 por 7M.
Plano de estudo de 7 dias
Dia 1: monte a tabela acima em G no violão ou teclado, tocando a tríade e depois a versão com a nota extra. Ouça a diferença.
Dia 2: repita em C. Diga em voz alta a nota extra de cada acorde.
Dia 3: pratique D – D4 – D e A – A4 – A, 60 BPM, quatro tempos por acorde.
Dia 4: toque C – C7M – C7 – F; repare como o C7 "empurra" para o F.
Dia 5: toque Bb – B° – C (ou A – A#° – Bm) e ouça o baixo subindo.
Dia 6: abra Ao Único e identifique, em cada acorde, qual é a nota extra.
Dia 7: pegue uma música do repertório do domingo e marque a lápis onde você vai manter o acorde completo e onde vai simplificar.